O Cordel Encantado
As historia de cordel vem de Portugal, trazidas logo do inicio da colonização… Wikipédia sana esses detalhes.
Porém, o que talvez não tenha sido notado remete algumas coisas muito interessantes sobre a história, que pelo nome e cenário se passa no nordeste, por ter alguns automóveis e pelo sistema político, em meados de 1940.
De alguns detalhes que percebi seriam a menção implícita ao livro Codex Serafinianus, livro sobre um mundo imaginário indecifrável do artista Luigi Serafini. Que poderia muito bem remeter a própria Seráfia, reino imaginário da trama.
O fato de um episódio trazer cangaceiros em vários automóveis, mostra uma das faces de Virgulino, o Lampião, que era rico, espelhada no personagem Herculano (todas as novelas da globo tem um Herculano?).
O que me chama mais a atenção é uma ligação muito singular com a própria formação étnica do Sertanejo e Caboclo que ali viviam. Tirando detalhes como a sujeira do povo, e alguns modos, como a personagem Dora (Nathalia Dill) tomando banho no meio do acampamento do cangaço, em uma banheira, porém, sem os quais, estragaria a pintura, a arte, da novela, seria a licença poética em cena.
O Sertanejo que no inicio dos séculos de colonização arrematava o gado, com sua descendência indígena mestiça com portuguesa, vai perdendo lugar e ganhando menos, pois há muito se multiplicava, junto com os bois, aumentando a concorrência pelo gado, fica marginalizado pelos grandes donos de terras, sesmarias, vivendo cada vez com menos, formando uma cultura de um povo sofrido apegado a religião e a cultos, como o de Dom Sebastião, breve rei de Portugal, símbolo de adoração. Esse fervo religioso, o sonho com um profeta, um novo rei, que tiraria o povo da miséria, se insere a crença que o “profeta”, Miguézim (Mateus Nachtergaele) tem de Celestino (Cauã Reymond) ser um rei a levar a Vila da Cruz a uma nova Canudos.
Fazendo com que a cruzada contra os Mouros tivesse reflexo aqui no cangaço, quando tanto como rouba dos ricos para dar aos pobres, sendo louvado, fica a mercê do inferno, com atos de pura brutalidade, o que é natural dos mestiços, pois não compartilham a cultura indígena, pois a dispensa, nem sustenta o convívio como igual com o branco, que por sua vez o dispensa.
Esse cangaço se alia a senhores de terras, como os jagunços de Timóteo (Bruno Gagliasso), impondo sobre o povo e outros senhores de terras com milícias menores sua vontade.
É uma rede de antagonismos que faz o braço forte, que não foi para o bandidismo, migrar para o sul com a promessa de ser uma terra com trabalho para todos, e mais justa, ou para a Amazônia nos seringais, hoje ainda subsidiado pelo governo, pela tecnologia e concorrência de outros países ser muito forte,deixando apenas os velhos cansados e jovens na terra natal. Sem esperança, pois poucas rebeliões se instauraram, e nenhuma com força alem de ganhar algumas batalhas ou mesmo de formar um governo paralelo ou um estado confederado.

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